terça-feira, 4 de março de 2008
Sobre Casa da Vovó, filme que será exibido segunda no Cinecaolho
Casa da vovó de Victor de Melo
I
Like a Virgin
Eu tive o grande privilégio de ser um dos primeiros a ver e escutar o filme de Victor de Melo! Eu não digo isso pra me gabar, mas para melhor tentar exprimir o que foi estar diante daquelas imagens e sons nunca antes vistos, pois essa é a sensação que o filme causa (imagine o primeiro espectador de Chaplin ou o primeiro espectador de Pedro Costa).
No cinema estamos sempre diante do já visto (pelo diretor, sua equipe, pelo próprio cinema, etc.), então como aconteceu de eu estar diante do nunca antes visto? O que modificou o meu olhar, o que conseguiu transformar meu olhar calejado em olhar virgem?
…
Existe uma busca (uma convicção) por pureza em cada imagem e som, pois este é o único jeito possível pro cineasta ligar a câmera na casa da vovó e registrar as pessoas, as fotos, os objetos que a habitam, de outro jeito seria insuportável, imoral. Esta busca é uma declaração que diz: “eu não posso fazer qualquer coisa dentro desta casa, eu não posso transformar o meu conhecimento desta casa em mesquinhez e exploração gratuita. Toda imagem diante de mim deve gritar sua presença, superar-me, tirar-me do já visto”.
O olhar de Victor de Melo diz “Não!” até que tudo o convença do contrário.
II
Tão longe tão perto
Logo no começo do filme tem um momento com uma garotinha sentada em uma cama choramingando que sintetiza muito bem o espaço que o filme ocupa dentro da casa. Ela sabe que está sendo filmada e por isso ela está tímida, apesar de estar sentindo uma tristeza irreprimível. Mas enquanto ela chora acontece uma tomada de consciência e o seu choro diante da câmera se torna uma pergunta. A câmera transforma a vida em pergunta. O filme registra uma tomada de consciência da garotinha que termina com um sorriso no canto da boca. Nós vemos que a distância da câmera é justa, pois existe um espaço (um lugar ausente de intenção) para a garota se sentir sozinha o suficiente e viver o que ela ainda não sabe e ao mesmo tempo existe uma presença estranha ali que torna aquele espaço do outro em espaço de jogo. O movimento que acontece nessa cena é perigoso, qualquer erro pode causar uma morte, mas o filme opta pela vida, pois o filme sabe que vida e arte são a mesma coisa.
III
Épico
Casa da vovó dura um pouco mais de vinte minutos. Na superfície (o que já é muito) vemos um curta e um documentário sobre uma casa e as pessoas que habitam essa casa (em todos os tempos), mas se olharmos com mais cuidado, com um olhar mais microscópico, o que vemos é um filme de enormes proporções que transborda o quadro e o campo com eventos cinematográficos. Existem inúmeras narrativas para nós seguirmos e muitas histórias para nós acompanharmos. A cada plano uma coisa nova se apresenta. A cada plano um mundo. E ainda tem a relação entre os planos. A cada escolha de montagem uma nova significação. O filme vai do singelo ao duro ao sombrio ao nostálgico à contemplação ao lúdico ao crítico... e em momento algum o filme deixa de fluir e de ser coerente em seu percurso complexo (com exceção talvez da cena do jogo de futebol com uma mulher limpando a casa).
Casa da vovó comprova e resolve a necessidade que o gênero documentário tem de se expandir pra continuar sendo possível como forma genuína de cinema.
Cinema direto épico
Em sua Forma ideal. A vida captada sem mediações. O cineasta está presente, sentimos a sua presença durante o filme. Ele observa e é observado. Não existe fingimento em nenhuma parte. É tudo direto, sem constrangimento. É como se ele estivesse trabalhando nesse filme desde sempre: não há diferenciação entre a casa e a presença do cineasta.
IV
A rotina tem seus encantos...
...mas deixa marcas. Onde estão essas marcas? Cézanne via o fogo nas montanhas, o que esconde as paredes da casa da vovó? Um passado, mas que desde já não é mais passado, pois perdura nas marcas. Quem é o homem que só aparece nas fotos? Ele está morto? Ele é um espírito? Não sei. Ele é um mistério. Ele é marido, pai, avô e bisavô. Ele nos escapa, é uma figura transcendental. É o ícone da construção. Ele é o reflexo das pessoas que habitam a casa.
Revelação
Por tudo que Ele e a casa escondem o filme se esforça em revelar, em tornar visível. Para quem? Para nós, mas também para o cineasta que tem um trabalho exaustivo e exigente a fazer. Quem constrói agora é o cineasta, e em toda humildade o cineasta sabe disso, pois à medida que ele constrói e nos leva passo a passo neste percurso intenso ele também esconde certos traços e certos gestos que nós precisamos ver, mas não vemos, pois estamos diante do indizível, do poético (no caminho contrário da linguagem e no caminho contrário da informação).
V
Multimídia?
O filme rodado em vídeo caseiro é também permeado por fotos, televisão e rádio, mas isto não quer dizer muita coisa já que todos os formatos servem a uma causa: registrar o que sentem as pessoas da casa. Uma foto não é uma mídia, é um lugar que tem profundidade física e emocional. A televisão e o rádio, no que concerne ao filme, também são lugares que ocupam um espaço forte dentro da casa. Exemplo perfeito disso é a cena em que a mulher ajoelhada em uma privada reza ao som de um pastor no rádio. No início pensamos que é uma mulher querendo vomitar, mas ela está tão estática e de costas para a câmera que passamos a duvidar do que vemos. Chega um momento em que admitimos para nós mesmos que o que acontece ali é de fato uma reza. Quanta heterogeneidade! O que torna especial esse momento é a vó que passa em frente à câmera bloqueando por um pequeno momento a nossa visão da mulher que reza. Quanta Heterogeneidade! E ao terminar a reza ela volta a limpar a privada dando a nós um momento epifânico (e quem quis ajoelhar e rezar agora era eu). Heterogêneo sim, multimídia não.
VI
Conclusão
O filme passa por muita coisa e não é a minha intenção esgotar o assunto aqui, mas que fique registrado aqui o meu espanto ao assistir as imagens e escutar os sons do filme realizado (desejado) por Victor de Melo. Um filme complexo, cheio de nuances e muito profundo (ainda mais levando em conta a idade do realizador). Victor me deu mais um par de olhos. Eu o agradeço.
Ricardo Pretti
A volta do Cinecaolho: Segunda-feira, 10 de março de 2008

Depois de um longo tempo parado, o Cinecaolho está de volta. Na segunda, dia 10, exibiremos dois curtas produzidos recentemente em Fortaleza:
FICAMOS FELIZES COM SUA MARCANTE PRESENÇA NESSE MOMENTO TÃO ESPECIAL DE NOSSAS VIDAS, de Pedro Diógenes | digital | 20min | 2008
CASA DA VOVÓ, de Victor de Melo | digital | 24min | 2008
Após a exibição dos dois curtas haverá debate com os realizadores.
O Cinecaolho é um cineclube organizado por alunos da Escola de Audiovisual e acontece todas as segundas no Cine Benjamim Abraão, na Casa Amarela, às 19h. A entrada é gratuita.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Cinecaolho :: segunda, 29 de outubro de 2007
de Luiz Pretti
Ficção, 14min, 2007 (estréia)
JARRO DE PEIXE
de Salomão Santana
Ficção, 15min, 2007
Após a exibição dos curtas haverá debate com os realizadores.
Local: Casa Amarela Eusélio Oliveira, Cine Benjamin Abraão
Horário: 19h
O Cinecaolho é um cineclube organizado pelos alunos da Escola de Audiovisual de Fortaleza e acontece toda segunda-feira na Casa Amarela. A entrada é gratuita.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Fortaleza, 19 de outubro de 2007


Victor de Melo
Fotógrafo de vídeo e still e aluno da Escola de Audiovisual de Fortaleza
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Tropa de Elite, por Pedro Diógenes
“Tropa de Elite” é o filme mais importante do Brasil dos últimos anos! Aqui não importa se ele é extraordinário ou péssimo. O que importa é que ele esta sendo visto e discutido. Ele esta sendo visto por todos, não importando a classe social, a crença, idade, interresse pelo cinema e o nível cultural. E eu estou falando de um filme que ainda não foi lançado no Cinema!!! “Tropa de Elite” é um fenômeno que precisa ser entendido, pois além de ser muito visto, ele é motivo de conversa, e muitas vezes discussões, por todos. Discutir “Tropa de Elite” é discuti a violência nesse país. Faz duas semanas que eu não passo um dia sem falar nesse filme. Pessoas que nunca conversaram comigo sobre cinema vêm me perguntar se vi esse filme.
A violência no Brasil já produziu números e notícias inacreditáveis, mas nunca se discutiu tanto a violência como com o filme. Será que a ficção levanta mais discussão que a realidade? É o poder do cinema, e estamos falando de um filme que coloca a violência em primeiríssimo primeiro plano.
“Tropa de Elite” é a visão de um policial sobre a violência nos morros do Rio de Janeiro. Esse policial é o narrador onipresente do filme. Ele não pára de falar um só instante e sua opinião fica bem clara: ele acredita que só a violência pode combater a violência, chama sua corporação de seita, tortura mulheres e adolescentes, humilha desumanamente seus subalternos, mata, coloca a culpa da violência nos jovens de classe media que fumam maconha e quer que toda essa violência se perpetue achando um substituto que seja a “altura” dele.
Duas conclusões consigo tirar rapidamente após ver o filme: a) esse personagem é um assassino perigoso para a sociedade que pensa que é Deus e deveria estar em um manicômio se tratando; b) e que está na hora de se pensar na descriminalização das drogas.
Fico impressionado que muitas pessoas se identificam com o personagem, acham que ele age certo e que ele é uma espécie de herói. “A pessoa gostar ou não de um filme fala muito mais da pessoa do que do filme”. Adoro essa frase dita em sala pelo professor Alexandre Veras e acho que ela poderia se adaptar para o momento e ficar assim: Um filme ser um fenômeno
“Tropa de Elite” é um fenômeno que precisa ser entendido.
Pedro Diógenes
Realizador de Audiovisual e aluno da Escola de Audiovisual de Fortaleza
sábado, 6 de outubro de 2007
A Direção de Fotografia, reflexão de Gilles Weyne
Desde que Narciso era Narciso e o homem era homem, ele sempre se apaixonou pela sua própria imagem.Desde as pinturas rupestres, o homem sentiu a necessidade de se representar e, por tabela, de se ver representado. A necessidade de se ver e o regozijo que isso lhe proporciona sempre foram fontes de inspiração e motivos para representar-se (a si mesmo ou a seu semelhante) seja numa obra estática (como um quadro, uma fotografia) seja numa obra em movimento (como uma peça de teatro). Representar-se num filme atinge então um grau de perfeição (não necessariamente de fidelidade) dificilmente alcançável por outra arte: o homem se representa em movimento, mas de maneira reproduzível, que se possa ser vista da mesma maneira inúmeras vezes. Porém, a sua representação e a imagem que ele tem de si mesmo dependem do seu ponto de vista (ou ângulo) não só metafórica, mas fisicamente também.
Deus criou o homem à sua imagem, dizem certas religiões; Deus criou o homem, dizem todas. Independentemente do seu credo, o homem (sem necessariamente ser religioso, basta ele viver numa sociedade fundada em conceitos religiosos)não só se vê ao ver o seu semelhante (e vice-versa: vê seu semelhante ao se ver), mas, principalmente, vê (seja em si mesmo seja no seu semelhante) a obra do seu Deus (ou da evolução darwiniana da sua espécie que seja). Ou seja, ao se ver, seja no espelho, seja na tela, o homem tanto se vê quanto vê a humanidade como um todo, como parte de um todo (seja esse todo fruto da criação de um Deus, seja ele devido às forças da natureza e dos anos).
As pinturas, das rupestres parietais às sofisticadíssimas renascentistas, só corroboram o fato de que o homem não só sempre gostou de se ver representado, como sempre gostou de se representar (seja no palco, na parede, no quadro ou na tela). Da mesma forma que quando o homem se vê, ele vê a humanidade como um todo, quando o homem se apresenta (no palco, no set) ou se representa (no quadro, na tela) ele representa ( ou apresenta) a humanidade como um todo: ao representar-se(apresentar-se), o homem representa a humanidade, ou seja, representa a criação do seu Deus ou (para os mais ateus) a evolução lógica da vida na terra.
A fotografia, como advento científico, só tornou mais acessível à maior parte da população a contemplação de entes queridos ou de si mesma (num último suspiro narcisista). O cinema é só, por tabela, uma representação, por mais em movimento que seja, de uma suposta realidade (como um retrato renascentista representa supostamente alguém, apesar desse “alguém” ter ficado parado, de fato, horas a fio). Realidade suposta ou porque se trata de um tema, por mais real que seja, reencenado, ou porque se trata de uma ficção, puro e simplesmente. Mesmo que o tema abordado não seja nem reencenado nem uma ficção, ou seja, mesmo que o tema seja um documentário; a escolha dos ângulos, das luzes, do som e, quem dirá, dos entrevistados, não deixa de ser uma suposta realidade.
O Homem gosta de se ver, gosta de ver o outro: o Homem gosta de ver (seja pelos olhos, seja através de outros sentidos: o Homem gosta de se comparar: da mesma forma que um deficiente visual vai tatear o rosto do seu interlocutor para “dar um rosto à voz”, se eles tiverem um mínimo de intimidade). A maior parte das deficiências inclusas, o Homem gosta de perceber. E se ele gosta de perceber o outro, ele gosta de ser percebido. Se ele gosta de assistir à humanidade, ele gosta de sentir que faz parte dela. Só dessa forma ele se sente como parte dela ou, pelo menos, à imagem dela.
Quando Narciso se viu espelhado no rio e se apaixonou por si mesmo, não podemos, como estetas, deixar de nos perguntar como ele se viu. Se Narciso estava, como diz a lenda, debruçado sobre o rio; tudo indica que o rosto dele estava na sombra, ou, no mínimo, numa penumbra: ou seja, apesar de estar em contra-luz, Narciso apaixonou-se por si mesmo. Afinal, ele, mais do que ninguém, sabia que o que lhe importava não era a luz, e sim a imagem (no caso, a do próprio rosto refletida).
Talvez não seja à toa que eu tenha me diplomado em escultura, porque o meu pai sempre foi um fotógrafo diletante e sempre me ensinou a encarar essa forma de representar o mundo como uma forma de expressão da subjetividade. Tanto ele me ensinou a fotografar quanto eu herdei a máquina fotográfica, analógica, dele. Máquina que sempre me ensinou mais do que a dominei. Fotografar não é só uma arte; fotografar é uma técnica. A máquina já tem a sua subjetividade através da sua lente: uma fish eye já não “diz” a mesma coisa que uma tele-objetiva. Como se colocar entre a lente e o filme, a ser impresso, é a grande questão, o grande desafio. Adotar a função do espelho/obturador é a sina do fotógrafo. Nada é fortuito. Nada é fruto do acaso.
A fotografia, como a de cinema, é um tiro no escuro. Vik Muniz já dissera, aqui em Fortaleza (citando alguém de quem não lembro, e, se duvidar, nem ele se lembrou), que a fotografia era o recorte no espaço-tempo de algo que o fotógrafo (sujeito com um olho no visor e outro fechado) não viu, não presenciou: a fotografia é para o fotógrafo a lembrança do momento que ele não viu (a partir do momento em que quando ele bateu a fotografia, o obturador escureceu a sua vista e, portanto, não viu o que acontecia na hora, no instante da fotografia).
Ao adquirir movimento, a fotografia já deixa de ser a representação de um instante e passa a representar uma secessão de instantes.Como formado em escultura, sei que o volume só se dá com a luz, só existe por causa da luz. É, então, difícil, escolher entre o volume e a luz. Eu me diplomei em “volume” e me deparo com uma matéria que sempre me atraiu (se é que não me incitou a seguir a carreira que segui). Mas essa matéria não é traiçoeira só porque ela existe pelo simples fato de que se há luz, há escuridão, e sim porque os/nos/me representa.
Diretor de fotografia atira no escuro. Ele não sabe qual será o resultado final: ele faz idéia, mas não sabe com 100% de certeza. Já um diretor de arte (para o qual eu já tenho mais inclinação) sabe, ao montar o set, se o trabalho dele funciona ou não. O diretor de fotografia tem de confiar, além de em si mesmo, nos profissionais envolvidos no tratamento do seu trabalho: a película. É uma profissão de fé. É uma profissão que além da sensibilidade requer conhecimento técnico: que lente, que luz, que ângulo, etc.
Diretor de fotografia sabe e ousa, só não sabe se o que ousa caberá. Diretor de fotografia é um ser estranho, paranormal, que já pré-sente o que virá, pelo menos, o que virá na tela. Ele tem um pleno e total conhecimento de lentes, filtros e efeitos e das suas respectivas conseqüências visuais. Ele é o pintor da tela. O diretor de arte escolha qual objeto e onde ele será colocado; já o diretor de fotografia escolhe o que e como mostrá-lo ou escondê-lo.
Se o diretor de arte brinca com os objetos, o diretor de fotografia brinca com como eles vão aparecer na tela. Como ele vai dar o devido volume, ou não, a eles. Além de tomar decisões cruciais para o filme (para cada fotograma), o diretor de fotografia ainda tem que se preocupar problemas inerentes ao roteiro: seqüência de cenas, continuidade, verossimilhança, etc.
Nunca pensei em ser diretor de fotografia, talvez por nunca ter sentido firmeza nas minhas escolhas fotográficas. Essa semana de aula tanto me apavorou quanto me fascinou para com o assunto e a técnica tratados. Ser diretor de fotografia soa vários tiros no escuro e a cada tiro: um clarão. Dirigir a fotografia é o mesmo que decidir para onde vai cada raio, cada facho, cada sol ou cada lua. Até receber o copião, ser diretor de fotografia é, talvez, uma das mais vulneráveis funções do set de filmagem: a função que ao mesmo tempo é a que mais manda (e desmanda) e a que mais é cobrada.
Gilles Weyne
Artísta plástico e aluno da Escola de Audiovisual de Fortaleza